Proposta apresentada pela entidade prevê a criação de espaços de regulação sensorial nas escolas municipais e defende participação direta de pessoas autistas na elaboração e fiscalização dos ambientes

A União dos Jovens Autistas (UJA Brasil) participou da Tribuna Livre da Câmara Municipal de Vitória na última segunda-feira (15), onde apresentou aos vereadores da capital um projeto para implantação de Salas Multissensoriais nas escolas da rede municipal de ensino. A proposta foi apresentada pelo diretor-presidente da entidade, João Otávio Carvalho, que defendeu a criação de espaços voltados à regulação sensorial, ao acolhimento e à permanência escolar de estudantes autistas e outras pessoas neurodivergentes.

Durante a apresentação, João Otávio exibiu um projeto técnico contendo os recursos considerados essenciais para uma sala multissensorial, incluindo iluminação dimerizável, isolamento acústico, equipamentos sensoriais, recursos táteis, mobiliário adaptado e ambientes planejados para promover descompressão e autorregulação.

Segundo o diretor-presidente da UJA Brasil, a necessidade desses espaços se torna ainda mais evidente diante da ampliação da educação em tempo integral. Ele destacou que muitos estudantes passam entre cinco e nove horas dentro das escolas e, em situações de sobrecarga sensorial, acabam não encontrando um local adequado para recuperar o equilíbrio emocional e retornar às atividades.

“Os estudantes permanecem por muitas horas dentro da escola. Quando ocorre uma sobrecarga sensorial, muitas vezes não existe um ambiente preparado para que eles consigam se regular novamente. Isso pode desencadear crises e até a necessidade de que a família seja acionada para buscá-los”, afirmou.

Durante a fala, João Otávio também chamou atenção para a importância de critérios técnicos na implantação desses ambientes. Ele ressaltou que algumas iniciativas existentes não atendem plenamente aos objetivos de uma sala multissensorial, aproximando-se mais de salas de intervenção terapêutica do que de espaços destinados à regulação sensorial e à descompressão.

Como exemplo, citou modelos adotados em escolas municipais de Aracruz, que, na avaliação da entidade, apresentam características semelhantes a ambientes utilizados em terapias comportamentais e não contemplam diversos elementos considerados essenciais para uma sala multissensorial. Para a UJA Brasil, a implantação desses espaços deve priorizar recursos efetivamente voltados à redução de estímulos, ao conforto sensorial e à autorregulação dos estudantes.

Por outro lado, João Otávio apontou como referência positiva a sala sensorial instalada no Shopping Vila Velha. Segundo ele, o espaço reúne recursos como controle de iluminação, regulagem de cores, tratamento acústico, estímulos táteis e outros elementos que se aproximam do conceito ideal defendido pela entidade.

A apresentação na Tribuna Livre ocorreu a convite da vereadora Karla Coser (PT), que anteriormente recebeu da UJA Brasil o projeto de implantação de salas multissensoriais. A partir da proposta elaborada pela entidade, a parlamentar apresentou uma indicação à Prefeitura de Vitória sugerindo a implementação desses espaços na rede municipal de ensino.


Durante a sessão, Karla Coser destacou a importância de ouvir pessoas autistas e especialistas na construção de políticas públicas voltadas à inclusão.

“Estamos falando de estudantes que passam muitas horas dentro da escola e que, em determinados momentos, precisam de um espaço de descompressão. É fundamental que esses ambientes sejam pensados a partir das experiências de quem vive essa realidade”, afirmou.

A vereadora Ana Paula Rocha (PSOL) também manifestou apoio à iniciativa e destacou os desafios enfrentados por estudantes autistas no contexto da educação em tempo integral. Ela ressaltou ainda a importância da participação das famílias e das organizações da sociedade civil na construção de políticas públicas voltadas à inclusão.

Já a vereadora Mara Maroca (PP) lembrou das dificuldades enfrentadas por estudantes que sofrem com o excesso de estímulos no ambiente escolar e afirmou que a proposta atende a uma demanda observada em diversas escolas da cidade.

O vereador Anderson Goggi (Republicanos) utilizou seu tempo de fala para cumprimentar a iniciativa apresentada pela UJA Brasil e parabenizar os envolvidos na discussão sobre a implantação das salas multissensoriais.

Ao final da sessão, João Otávio Carvalho reforçou que a implantação desses espaços deve ir além da aquisição de equipamentos e da adaptação física dos ambientes. Para ele, as salas multissensoriais precisam ser construídas com a participação direta de pessoas autistas e demais pessoas atípicas desde a fase de planejamento, além de contarem com acompanhamento e fiscalização contínuos desse público.

“As salas multissensoriais têm um padrão e precisam ser pensadas junto com as pessoas atípicas. Não basta criar um espaço sem ouvir quem realmente utiliza esses ambientes. Se Vitória avançar nessa proposta, é fundamental que pessoas autistas e outras pessoas neurodivergentes participem da construção, da avaliação e da fiscalização desses espaços. São elas que sabem o que funciona e o que não funciona na prática”, concluiu.

Assista a participação da UJA Brasil na Tribuna Livre: